Exames laboratoriais

 

O exame mais frequentemente pedido para a dor abdominal é um hemograma. Uma contagem de leucócitos elevada no contexto de uma dor abdominal implica urna patologia grave. No entanto, o hemograma nunca deve ser utilizado para efectuar um diagnóstico específico, uma vez que aproximadamente 11% dos adultos normais têm uma contagem de leucócitos elevada e 13% apresentam desvios esquerdos. Situações que vão desde a gastroenterite até à apendicite e à pneumonia do lobo inferior e à cetoacidose diabética podem causar uma elevação da contagem de leucócitos. Ainda mais importante, uma contagem de leucócitos normal não exclui uma causa mais grave ou cirúrgica de dor abdominal. Um exame laboratorial adicional consiste no doseamento da proteína C reactiva (PCR), mas existe alguma controvérsia sobre a relevância da PCR como marcador no diagnóstico de uma apendicite aguda.

 

Estudos imagiológicos

 

A tecnologia imagiológica, como a ecografia e a TAC helicoidal, desempenha um papel essencial para ajudar os médicos nos seus diagnósticos. A decisão de qual o exame imagiológico a pedir para detectar uma determinada entidade patológica pode ser complicada.

 

TAC versus ecografia De um modo geral, a dor no hipocôndrio direito é mais adequadamente avaliada inicialmente através da ecografia abdominal. Para outras etiologias, a TAC abdominal é recomendada nos doentes com excepção das grávidas. Nas grávidas, a ecografia é preferível para minimizar a radiação. De um modo geral, a TAC da totalidade do abdómen e da região pélvica é realizada com contraste endovenoso e oral. Esta TAC com contraste ajuda a estadiar muitos processos inflamatórios, isquémicos e neoplásicos que podem causar uma dor abdominal aguda e que podem simular uma apendicite.

 

A TAC tem demonstrado melhorar a capacidade de tomada de decisão dos médicos nos doentes com uma probabilidade moderada de apendicite. Um estudo que examinou a utilidade da TAC nestes doentes verificou que 53 de 100 doentes tinham apendicite, enquanto o serviço de urgência identificou apenas 3 de 100 doentes como tendo uma apendicite. A TAC resultou numa diminuição das avaliações clínicas falsas negativas —18 dos doentes com apendicite foram observados e, em seguida, submetidos a uma intervenção cirúrgica, os quais, de outro modo, teriam tido alta após a sua avaliação. A imagiologia resultou igualmente numa diminuição das avaliações clínicas falsas positivas —13 doentes sem apendicite que não foram submetidos a uma intervenção cirúrgica teriam sido operados após a avaliação inicial do cirurgião.

 

A TAC, com a sua precisão elevada para a confirmação ou exclusão de diversos outros diagnósticos diferenciais de situações abdominais agudas, tornou-se a principal modalidade imagiológica para o diagnóstico de uma isquémia intestinal aguda. Uma TAC fidedigna para identificação de uma isquémia intestinal aguda requer geralmente a administração endovenosa de material de contraste iodado. O achado mais comum na TAC na isquémia intestinal aguda é um espessamento da parede do intestino. Ao contrário das angiografias, a TAC consegue demonstrar não só as oclusões vasculares como também as alterações da parede intestinal.

 

Embora uma TAC abdominal seja habitualmente considerada como tendo a melhor sensibilidade e especificidade para a apendicite nas crianças e nas grávidas, a exposição à radiação ionizante das TACs deve ser tomada em consideração. Por este motivo, a ecografia é frequentemente utilizada nestes doentes para diagnosticar uma apendicite, embora a sua fidedignidade seja altamente dependente do operador.

 

A ecografia abdominal é útil para diagnosticar doenças da vesicular biliar e os achados hepato-biliares associados e para avaliação da gravidez e das estruturas ginecológicas. Além disso, a ecografia é utilizada de forma crescente no serviço de urgência para uma avaliação rápida de um hemoperitoneu ou de um aneurisma da aorta abdominal.

 

Outros exames radiológicos

 

O consenso na medicina de emergência é que deve ser obtida uma combinação de radiografias do tórax e do abdómen quando se avalia a presença de ar livre (indicativo de uma úlcera perfurada/perfuração de víscera) ou de uma obstrução intestinal. A sensibilidade das radiografias simples para outros achados é limitada.